Editorial

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Editorial

Foi no Verão de 1992, o ano do nascimento da AAM, que entrei pela primeira vez no Vale das Rosas.

Depois de décadas de abandono, o Vale tinha sido limpo em 1987 pelo grupo de canadianos dirigidos por Gerald Luckhurst, mas, porque os trabalhos não tiveram continuidade, estava já praticamente intransitável, com silvas e acácias em grande quantidade. Demorei então mais de uma hora a atravessá-lo, pois para cada metro de progressão tinha de desviar vários ramos de silvas cobertos de espinhos, e também de algumas roseiras, que misteriosamente tinham conseguido sobreviver em tão adversas condições. 

No ano seguinte era já impossível lá entrar. O silvado era já contínuo, com cerca de dois metros de altura, apenas perfurado por centenas de acácias esguias, que tinham crescido rapidamente na procura de luz. 

Nos anos seguintes, nas visitas ao Jardim organizadas pela AAM, várias vezes falei com o Gerald sobre este Vale adormecido, que um dia, quando fosse recuperado, se tornaria numa das zonas de passagem obrigatória para os visitantes. E assim foi nascendo o sonho na AAM, sendo a primeira pessoa a ser contagiada a presidente Emma Gilbert.

Aceitar o primeiro donativo para limpar novamente o Vale foi um acto de coragem da presidente Emma, pois a falta de acesso impedia que se fizesse um projecto ou se calculasse sequer um custo, nem sequer se podia saber quantas roseiras seriam necessárias.

Sabíamos no entanto que seriam precisos vários anos para se realizar o sonho.

Quando se cortam acácias em grande quantidade, as sementes acumuladas no solo começam a germinar mal termina o primeiro Verão em que são aquecidas pelo sol. No segundo ano tínhamos milhares de pequenas acácias a tentar reocupar o Vale.

Só no terceiro ano é que tivemos a sensação de que estávamos a ganhar esta guerra, que ainda não terminou, pois todos os anos, teimosamente, algumas sementes ainda germinam. Só quando o solo ficar totalmente sombreado pelas roseiras é que poderemos respirar de alívio. 

 O projecto do novo Vale começou a ser feito pelo Gerald Luckhurst mal terminou a primeira limpeza. E foi muito mais feito no local do que em papel, pois não queríamos movimentos de terras e queríamos reaproveitar as velhas roseiras que ainda se mantinham vivas e que recomeçaram aos poucos a reaparecer depois das limpezas.

Para se ter um período de floração o mais alargado possível, tivemos de plantar as roseiras em três anos, para termos mais informação sobre os meses de floração de cada variedade. O objectivo é termos pelo menos nove meses de floração abundante, sabendo no entanto que Maio será sempre o mês mais espectacular.

Demorou tempo, mas o resultado final é melhor do que se tivesse feito à pressa. Temos ainda a felicidade de reconhecer que nunca estivemos parados por falta de financiamento ou por falta de colaboração da Parques de Sintra Monte da Lua, a quem agradecemos, sendo de realçar o empenhamento do Professor António Lamas.

A inauguração do Vale, durante a Visita Real a Portugal do Príncipe Carlos e da Duquesa da Cornualha no dia 29 de Março, culmina assim sete anos de trabalho, e é o reconhecimento da importância de Monserrate, que é possivelmente o mais importante jardim inglês construído fora de Grã Bretanha e num clima que permite ter plantas a céu aberto, que nunca sobreviveriam fora de estufas no clima inglês.

É preciso não esquecer que Sua Alteza o Príncipe Carlos sempre se interessou por jardins, construiu pelo menos um e tem obra publicada sobre o assunto, e só aceitou vir a Monserrate depois de lhe ter sido remetida informação sobre Monserrate e o que tinha sido feito no Vale das Rosas.

Estamos por isso todos de parabéns e a actual Direcção da AAM quer com esta newsletter agradecer a todos os que contribuíram, quer financeiramente quer com trabalho, para a concretização deste sonho, e a todos os que estiveram presentes no dia da inauguração. 

Este sonho que nasceu nalgumas pessoas só foi possível por ter sido apoiado por muitas outras.

Sabemos no entanto que o trabalho não terminou com a inauguração. 

Vamos ter de substituir algumas roseiras, felizmente muito poucas, que foram plantadas mas que não vingaram e queremos ainda plantar mais algumas roseiras que desejámos mas que ainda não conseguimos adquirir, por não estarem disponíveis no mercado. Temos ainda de colocar rega automática e vamos continuar a ajudar na manutenção.

 Só daqui a uns anos, quando as roseiras crescerem e se entrelaçarem cobrindo todos os canteiros, é que o sonho estará completamente realizado.

 

João Sande de Freitas